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Blitzkrieg

A mente é como um pára-quedas. Só funciona se o abrir. Frank Zappa

NOVO ENDEREÇO

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007
Podem encontrar-me AQUI. Fico à espera.

Sugestão

Quarta-feira, Junho 28, 2006

 


Chama-se 30 e picos e parece uma boa sugestão para visita. Aproveitem que está a começar. Não digam que eu não avisei.

Regresso à blogosfera

Quinta-feira, Outubro 13, 2005
Após um longo interregno blogosférico estou a postar aqui. Estão convidados a aparecer.

Reuniões de liceu

Segunda-feira, Julho 18, 2005
Sempre odiei as reuniões de liceu. São mais uma situação em que temos de usar nomes e categorias como «colegas» quando não se sabe como chamar ao energúmeno que temos, obrigatoriamente, que apresentar.
Estremeço ao pensar no dia em que sou apanhado desprevenido sem nenhuma desculpa salvaguardada (esfarrapada ou metafísica) que me descomprometa da obrigação de estar presente num acontecimento cujo pendor só é comparável às façanhas da inquisição espanhola (venha lá a Iron Maiden!). Cheguei mesmo a fazer uma pesquisa no GOOGLE para arranjar ideias. Para gerir esse pensamento, sem mácula psicanalítica, inventei um cenário em que sou atropelado por um TIR desgovernado que me permite escusar vitaliciamente, no último minuto, à presença ou pelo menos sair ilibado da falta às ditas reuniões de liceu. Graças às reuniões de liceu durante anos a mortandade grassou imaginariamente na minha família a uma média de um ponto cinco familiares por reunião. Na impossibilidade de prosseguir com o extermínio familiar (mesmo que só para efeitos de desculpa) iniciei o enriquecimento da minha ficha clínica com pestilências do corpo (de diarreia a seborreia) e degenerescências do espírito (de esquizofrenia a tendências piromaníacas) cuja gravidade, nalguns casos, obriga a estadas prolongadas em centros cujos horários coincidem, obrigatoriamente, com os dias das reuniões de liceu (RL).
Nas RL temos os aleijões, os ex. heróis de faz-de-conta, as fufas, os betos, os panilas, os bem-sucedidos, os assim-assim, os desgraçados, retraçados e indiferentes. Há, ainda, os que usam uma determinação ruça e debotada para nos fazer crer que concretizaram um espólio de sonhos só ao alcance dos nobres de espírito e ricos de pertences intelectuais. São os que nos fazem sentir que como o Pedro Lamy temos umas quantas voltas de atraso mas o que importa é cortar a meta. Felizmente a minha imaginação cede-me cenários de fazer inveja a George Lucas. Não são credíveis mas servem de uma forma cordata perfeitamente para o efeito.

Universo político - A política de A a Z

Quinta-feira, Julho 14, 2005
Re-edição


Político - (Substantivo) Aquele que tem ocupação de remuneração elevada, de horário desconhecido, com motorista e/ou veículo à disposição, sem incompatibilidades conhecidas e absentismo consentido. Nos cargos mais elevados, como Presidente da República, alojamento e respectivos cómodos estão incluídos durante o mandato. O mesmo que (m.q.) aquele que mesmo sem que o demonstre se dedica à política; o m.q. aquele que goza de imunidade num grau que o torna intocável; tretas (carinhoso); o m.q o que tem profissão de desgaste lento e reforma rápida; chulo, aldrabão (calão);

Outras características conhecidas do político:

- Indivíduo iniciado numa juventude partidária, de promessa rápida e execução lenta e/ou amnésica;
- Pessoa treinada tanto para presença em ambiente de mercado (durante período de campanha) como Parlamento (durante o chá das cinco);
- Indivíduo capaz de renunciar a cargos, para os quais foi eleito, evocando patriotismo;
- Indivíduo de verbo rico, fácil e sem sentido e/ou significado rigorosamente definido.
Para quem se interessa por política deixamos algumas sugestões de Keywords para pesquisa em motores de busca:
- demagogia;
- cunha;
- tachos;
- banha da cobra;
- lobbys;
- "jobs for the boys"

A sogra

Terça-feira, Julho 12, 2005


A peasent woman in white


É pessoal e intransmissível. Rija como o ferro. Quase vitalícia. Mais poderosa que uma locomotiva. Mais rápida do que uma bala. Não, não é o super-homem é a: SOGRA. Não é um novo super-herói. É, pelo contrário, uma realidade que existe quase desde que o mundo é mundo, não fora Eva ter nascido de costela de Adão em vez de ventre materno. É sabido, pela força da tradição, que cada noiva trás atrelada, para o seu casamento, a respectiva mãe, que pelos votos conjugais se torna a S-O-G-R-A. A tradição mudou e já não, são muitas as práticas casamenteiras do passado que se mantêm. Por exemplo, as adeptas do enxoval com as rendas, mantas, cortinados, pratas, colchas e tapetes, moram nas brumas do antigamente. Nem vamos falar da questão do sexo antes do casamento pois isso é algo que remonta ao início da humanidade. No entanto , uma tradição manteve-se incólume à passagem do tempo: a sogra. A sogra é a figura institucional que simboliza as dificuldades do casamento. Uma das principais fontes de embaraço na relação, já por si atribulada, entre solteiros e casados. Ela é a matriarca da desgraça. Um entrave ao enlace matrimonial. A razão para não temer o pai da noiva mesmo que ele tenha precedentes violentos. A sogra é um empecilho à sanidade conjugal, não é uma pedra no sapato, mas antes uma pedreira inteira e de granito. É a fava do casamento, partindo do pressuposto, nem sempre exacto, de que a filha é o brinde. Não pode ser devolvida, moldada ou triturada. Vem para ficar. É um teste à paciência e à tentação de cometer homicídio. Todos têm a sua e, infelizmente, não pode ser partilhada. As suas vítimas são anónimas. Não existem discriminações raciais, sociais ou espirituais. Existem baixas em todas as facções. Ninguém é excluído. Não existem preferências nem territórios pré-determinados. Infelizmente não está em vias de extinção. Os dinossauros foram, mas ela ficou. Lamento, informar mas cada um com a sua, não dá sequer para trocar. Felizmente que a minha é um doce...Que pena que eu tenho de si!

TPM – Tensão pré-menstrual

Segunda-feira, Julho 11, 2005
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Os homens não têm e as «mulheres» na adolescência julgam-se especiais por isso, mas na maioria dos casos passavam bem sem ela. Irritabilidade e intratabilidade são duas palavras que qualificam o problema: a menstruação. Escorraçado e mal compreendido «o período» é desde fonte de alívio a razão para fim-de-semana estragado. Uns fogem dele «como diabo da cruz», outros rejubilam quando lhe pressentem a chegada no cais de embarque à tabela, como previsto no horário orgânico. A criação da mulher, de uma penada, de uma única costela de Adão fez com que o produto final pecasse pela imperfeição. Depois das dores de cabeça, a menstruação é um desses efeitos. A silicone tem dado uma ajuda mas, ainda, só se lhe encontrou aplicabilidade ao nível das glândulas mamárias. No fundo, a menstruação é uma penalização divina pela precipitação com que se escolheu a matéria-prima para fazer Eva. Era impossível fazer uma criação totalmente conseguida de uma só costela. Seria o mesmo que querer fazer um bólide a partir de uma jante usada. Os problemas subsistem até hoje e a TPM é uma das faces mais visíveis. Há toda uma indústria que gravita e vive à custa da menstruação:
- publicidade aos pensos higiénicos;
- indústria dos pensos higiénicos (resistentes, à prova de água, à prova de bala, em amianto, absorventes, ultra-ultra-absorventes, ultra-absorventes, com ligação à net, com chip incorporado para facilitar nas estatísticas, com aforismos e provérbios chineses, aderentes, extra-aderentes, extra-extra-aderentes, com cheiro a framboesa, sabor a baunilha, com padrões desportivos, políticos ou religiosos, etc.);
- cuecas próprias para usar com os pensos higiénicos (normal, extra, tanga, slip, gola-alta, impermeáveis, recicláveis);
- publicidade aos tampões;
- indústria dos tampões (pequenos, médios e de grande formato);
- cuecas próprias para usar com os tampões (com características idênticas às usadas com os pensos higiénicos);
A complexidade da problemática fez com que até a língua (o idioma!) se adaptasse à situação e criou sinónimos e expressões elucidativas:
- período;
- «Adivinha quem voltou?»
- «o Benfica joga em casa»;
- chico;
- aquilo;
- «coisas de mulheres»;
Associada a toda a querela menstrual a TPM - Tensão pré-menstrual - foi um devaneio do criacionismo cuja função, exclusiva, é testar os limites da paciência masculina. Só os mais aptos sobrevivem. Somos uma minoria!

Memória feminina

Sábado, Julho 09, 2005
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A memória feminina é um inesgotável receptáculo de episódios e datas cujo potencial ultrapassa, em muito, a capacidade de armazenamento da sua congénere masculina. Para grande infelicidade e infortúnio masculino. Ela é capaz de abarcar por virtude das características que possui situações passadas até na vida intra-uterina e quem sabe antes. É um sensível papel químico cuja natureza permite que a mera passagem de uma mosca mais atrevida no seu raio de acção deixe nele registada a passagem, ao segundo. A si nada escapa. É uma espécie de arquivo de poderes infinitos onde tudo o que sucede, sucedeu ou sucederá fica registado, vitaliciamente, e pode ser usado a qualquer momento. Abarca datas de nascimentos, baptizados, crisma, primeira comunhão e seguintes, reinados, noivados, lutos, campeonatos nacionais e internacionais, eleições, capitulações e regicídios, tudo o que a sua e minha imaginações juntas (e mais houvesse) conseguirem sugerir é lá que está a data. Existe para infernizar os homens que se esquecem, por escassez mnésica, de acontecimentos que embora fugazes são importantes para a vida do casal:
- a data da primeira vez que se viram;
- da primeira vez que desejaram nunca se ter visto;
- a data do primeiro beijo;
- do último (era ainda Reagan Presidente);
- o dia em que saíram pela primeira vez;
- da última vez que isso sucedeu (por ocasião de um velório dum familiar);
- O dia em que pela primeira vez ela teve coragem de lhe dizer que ele não só não sabia dançar como lhe esmagava os dedos sempre que a pisava.
- A data exacta da noite em que ele ganhou coragem e lhe disse que ela tinha que dar sumiço ao buço. Etc.,etc.,etc.
A incapacidade de qualquer homem em fixar todos estes episódios na exactidão da sua ocorrência temporal faz com que se esqueçam, obviamente, os respectivos aniversários. É uma epopeia não trágico-marítima mas perto disso. Imperdoável! Passível de pena capital na lista de delitos do sagrado matrimónio, quase exequo com a cobiça de mulher alheia. Para as mulheres a situação não passa duma sórdida insensibilidade masculina quando de facto mais não é mais do que uma falha fisiológica, anatómica, de concepção, formato, o que lhe quiserem chamar. Ainda para mais, incontornável e insuperável, pois não existe operação ou fármaco que lhe façam frente. Compreensão é tudo o que pedimos. Só! Será pedir muito por um defeito que nem é propositado?

O admirável mundo da mala feminina

Quinta-feira, Julho 07, 2005
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Adivinhe se for capaz. É exígua nas dimensões. Variada nas formas e cores. Anda sempre recheada mesmo que leve pouco dinheiro, ou ele nunca lá tenha habitado. Pode ser de cabedal, pano, almofadada, enrendada, insuflada, impermeável, transparente, ocre, bege, esverdeada, cor de burro quando foge, herdada, comprada, emprestada, roubada ou mesmo emprestadada, moderna, pós-moderna, linda de morrer, feia que nem uma bota da tropa, bonita, assim-assim, reles, fina, decadente, inexperiente, a estrear, ou completamente decrépita, alegre que nem velório, divertida até às lágrimas. Apesar de reduzida no tamanho é pródiga na natureza dos objectos que alberga e a todos dá indiscriminadamente guarida, terços, colares de contas, alheiras de Mirandela, presuntos de Chaves, rolo com 500 metros de arame farpado, sistemas áudio com Dolby Sorround. Há-as de várias marcas, sem marca ou semi-marca e dos mais variados modelos. Ainda não adivinhou? Mais uma pista.... Louis Vuitton fá-las há décadas. Sim? Vá lá, faça um esforço! Claro! O que mais poderia ser? As malas femininas. Pelas pistas era evidente. Não me diga que nunca teve vontade de espreitar para dentro duma, mas a vergonha, o medo de ser apanhado pela patroa, ou simplesmente o temor de ser sugado para o seu interior, levaram sempre a melhor. Quem consegue ter um utensílio que no seu interior tem kits de pintura, telemóveis, agendas, lenços de papel, chaves, cremes hidratantes, protectores, bronzeadores, uma pequena farmácia preparada para uma eventualidade nuclear, armamento para terrorismo urbano e luta corpo a corpo, pacote completo de manicura e idêntico estojo para o cabelo com secador incorporado, meias de vidro suplentes, pestanas e unhas postiças, pensos higiénicos, tampões acolchoados, TV portátil com ligação satélite, guia de conversação para duzentos idiomas e pequena enciclopédia condensada em 20 volumes de capa rígida, estojo de primeiros socorros com opção para pequenas cirurgias, documentação apensa desde o nascimento, portfolio, câmara fotográfica com conjunto de 10 objectivas, PC com impressora e scanner, porta-moedas com câmbios de doze nacionalidades ao ombro e ainda fazer com ele toilette com o resto da roupa? Só com uma mala feminina. Ela é uma autêntica ferramenta feminina. Um apêndice à fisionomia do bel sexo. É ela que torna as mulheres auto-suficientes quer no deserto, savana ou floresta luxuriante, quer em climas tórridos ou temperados. É por isso que é impossível apanhá-las desprevenidas.
Em tempos que depressa hão-de chegar, quando menos esperarmos, cada recém-nascido do sexo feminino trará debaixo do pequeno braço papudo encavalitada por entre o diminuto sovaco a sua primeira mala, já com um pequeno batom para recém-nascidos, peluches variados, rocas multifunções e uma pequena palete de 500 fraldas descartáveis recicladas. A mala tornar-se-á, assim, desde o berço essencial à condição feminina. Faz todo o sentido uma vez que na idade adulta se tornarão inseparáveis. Porque ela é o último reduto da liberdade feminina. Conjuntamente com a intuição feminina são armas que fazem granjear vitórias às mulheres na eterna guerra dos sexos.

O Flirt e o piropo

Quarta-feira, Julho 06, 2005
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"Adeus ó boa!" Nada melhor do que esta pérola de ancestral sageza para ilustrar o grito de desejo de acasalamento. Herdado de tempos imemoriais, ele conquista para a necessidade de procriação, das fileiras da indecisão, mulheres para quem ele é um autêntico rastilho que inflama a tímida libido. Obviamente que falamos do piropo. Incompreendido, sem dúvida. Eficaz é, no mínimo, questionável. O piropo é, no entanto, incontornável e a sua natureza emblemática faz dele uma poderosa frota e singular armada invencível na batalha da sedução.
Embora difamado o piropo continua a possuir a delicadeza e candura que fizeram dele o instrumento preferido da cobiça. Ele é um frémito de paixão. Um anúncio ao mundo que põe a nu os propósitos do seu autor. De variadas estirpes, o piropo português tem uma linhagem distinta do chinês, ou do seu congénere inglês, mais fleumático. No entanto, em termos gerais, o piropo é uma declaração de intenções partilhada e comungada por todos os que se encontrem no seu regaço. São um pregão que fere o horizonte e desfere nele um golpe impossível de ocultar. Ele brame nos tímpanos do seu auditório e, em particular, da sua presa uma apaixonada mensagem cuja poesia era impossível ficar ocultada pelo peso da vergonha. O verbo que melhor traduz o acto de pronunciar o piropo será verberrar, neologismo que tem por significação anunciar um propósito por meio do verbo (palavra, na índole bíblica) berrando. Ele é uma tomada de posição assumida perante pares. Frases como "se tu quisesses era para toda a vida", são um viril grito de intenções, lançado de um qualquer robusto andaime, que rompe o ar com a mesma pujança que o Imã de centenário minarete convoca os fiéis para a oração a Alá. O piropo é um património, que só não tem estatuto perante a UNESCO por não estar em extinção ou ser um fenómeno raro. Ao invés é um território desbravado por todas as culturas, em todas as idades, em todas as épocas e imune à geografia. Desde o tempo das pirâmides em que por entre a pedra rompiam cânticos como:"comigo era a estrear", que há registos do piropo. Heródoto conhecia-o. Homero comentava-o. As rainhas coravam perante eles. Os eunucos temiam-nos. Mas do que frases são hoje, como ontem, poderosas armas que ontem rivalizavam com catapultas e hoje com o gás sarine. O piropo desbrava o anonimato. Se Hermes era o mensageiro dos deuses o piropo é a estrela que anuncia a boa nova. O admirador do piropo tem nervos de aço e guelra de tenor. Ele é o arauto da gramática sexual. O exímio conhecedor da linguagem do desejo. O piropo faz parte do homem e o homem faz parte do piropo. A questão é de tal modo complexa que não sabe a origem exacta para este autêntico grito do ipiranga de cariz sexual. É uma questão só comparável à do ovo e da galinha e quem chocou o quê. Porém, uma coisa toda a gente sabe, o piropo existe desde que existem obras. O primeiro piropo tem a mesma idade da primeira construção humana. Isto é um facto inegável. A obra está para o piropo como este está para a mulher, são inseparáveis. A diáspora do piropo despontou com a epopeia da construção civil. Onde houver obra há piropo e onde houver piropo obra. Por isso ele nunca morrerá. Ele é uma autêntica argamassa masculina, inabalável ao tempo e às modas e imprescindível ao flirt.

Nascida a quatro de Julho

Terça-feira, Julho 05, 2005
Ainda sem ninguém estar à espera, depois de durante nove meses ter esperneado sem tréguas no ventre materno, a pequena M acordou a senhora S com contracções e assomou-se ontem, primeiro a medo e depois de uma vezada, e às 11h05 cobria o ar com seu choro, como se a anunciar que este mundo agora também é o seu. Quase três quilos de escorreita vida. Eu sei porque estava lá e isso será coisa que eu nunca esquecerei. Primeiro nasceu sem sobressaltos que estas coisas do parto querem-se com vagar e depois deixou todos fazer o inventário das semelhanças e heranças genéticas, a epopeia do «o que é que é de quem» divertindo-se a ouvir-nos atribuir dono ao seu nariz, pés e circundantes partes do seu meio palmo de gente. Na recepção, se tudo estivesse como há pouco tempo atrás, discutiam-se as universais relações de causa-efeito, atribuíam-se culpas ao governo, comentavam-se as contratações do Benfica e um pai, ainda pouco convicto, atormentava todos com os atributos do seu herdeiro. Mas, enquanto limpava o suor da intrépida senhora S, lhe humedecia os lábios, lhe admirava a força e lhe confortava a dor a pequena M tinha nascido e isso muda tudo.
Sempre odiei blogs lamechas daqueles em que todos se reservam o direito de dizer que hoje acordei assim ou assado ou que fulano é a melhor coisa do mundo, sicrano idem aspas e beltrano vai pelo mesmo caminho. Mas hoje nenhuma dessas regras conta. A pequena M nasceu. Hoje acordei a achar que este mundo é o melhor sítio para se viver, pelo menos é bom que o seja porque eu lho exijo. Digo-vos mais, Tom Waits é o melhor, Frank Zappa idem aspas e Miles Davis vai pelo mesmo caminho. Pronto tenho dito. E se quiserem mais ainda vos digo que gostava de saber escrever como Lobo Antunes, fotografar como o Cartier Bresson, adoro vinhos alentejanos, os quadros de Klimt, Pollock e Kandinsky e o Cinema Paraíso e as Pontes de Madison County são dois dos filmes da minha vida. Adoro Praga, Florença e Londres mas a escolher seria Amesterdão isto apesar de achar Lisboa uma das cidades mais belas. Sempre achei que tudo isto só a mim dizia respeito e que aos demais (tirando os mais próximos) só deveria oferecer ficção. Mas a quatro de Julho nasceu a pequena M e agora nada será como dantes e eu, inexplicavelmente, estou fascinado com a ideia. Passei a partilhar coisas mesmo com estranhos, a ser ridículo, piegas e a exigir atenção para as minhas narrações paternas mas, afinal, sempre é verdade e ser pai é mesmo a melhor coisa do mundo. Mesmo mudando-nos irremediavelmente. Bem vinda pequena M e que sejas muito feliz. Eu cá estarei com a senhora S a fazer tudo por isso. Estamos todos a torcer por ti. Agora diz-me está na hora de mudar a fralda?


Nota: digam à
RITITI, a quem ainda não perdoei não ser de esquerda (conforme descobri ao ver a entrevista que deu a Francisco José Viegas, no Livro aberto), que desde ontem fiquei a achar que as gajas é que deviam mandar nesta porra pois têm mais força que todos os homens juntos.

Mundo masculino e mundo feminino

Sábado, Julho 02, 2005
Re-edições
Em virtude do possível desaparecimento da Blitzkrieg da antiga morada serão efectuadas, ocasionalmente, re-edições de textos anteriormente publicados. Fica a primeira...
Degas


O mundo masculino e o feminino são irremediavelmente diferentes. Até à enxaqueca crónica! Para visualizar melhor a situação imaginem que vão de carro e encontram uma fronteira tipo Vilar Formoso. Dum lado damos de caras com o mundo feminino no outro batemos com o lombo no mundo masculino.
Imaginando o mundo feminino ele será, sem dúvida, cor de rosa, aromatizado, aclimatizado sem mácula, todos os seus habitantes terão a roupa a condizer, andarão obrigatoriamente de barba feita e as casas serão asseadas e com estantes com objectos arrumados por tamanhos, espécies, proveniências e anos. As flores pululam por toda a parte, em cada esquina haverá vendedores de acessórios e todas as ruas terão lojas de roupa das melhores marcas. Só as mulheres terão cartão de crédito o qual, por lei, não poderá ser controlado pelo marido. Também por decreto-lei fez-se saber que as mulheres devem ser acompanhadas, para todo o lado, pelas amigas. Neste mundo a sogra é uma espécie protegida e devido às medidas proteccionistas implantadas o seu número aumentou substancialmente sendo possível, no momento em que falamos, reproduzir sogras em cativeiro com um assinalável sucesso. No mundo feminino a dor de cabeça não será uma desculpa e passará a ser considerada um estado de espírito. Passará mesmo a existir o estatuto de objector sexual. Neste mundo não existirá a lei do fora de jogo, aliás o futebol a existir será transmitido no intervalo das telenovelas. Todos os carros terão a mesma cilindrada e não saber estacionar será uma coisa boa. No mundo feminino tudo será agrupado entre o «fofo» e o «não fofo», o «querido» e o «não querido». Exclui-se o «amoroso» que é uma designação com estatuto próprio. Em virtude do mundo feminino não ser totalmente auto-suficiente estabelece trocas comerciais com o mundo masculino. No entanto, as trocas estão estabelecidas ao nível dos serviços: mudar pneus, carregar a botija do gás (em zonas onde o gás não seja canalizado), arranjar o carro, etc.
O mundo masculino é caoticamente organizado. As ruas têm ecrãs gigantes onde durante 24 horas são transmitidos jogos das mais variadas modalidades. A cerveja é considerada bebida medicinal e, como tal, comparticipada pelo estado. O striptease, por seu turno, é considerado uma ferramenta pedagógica. Como, ainda, não consigo sobreviver sem o mundo feminino este documento autodestruir-se-à dentro de momentos e todo o ficheiro será apagado do disco rígido...10, 9, 8, 7, 6, 5...

A idade fica-me tão bem?!

Quinta-feira, Junho 30, 2005


Agora que o couro cabeludo apresenta a consistência dos Himalaias salpicado, a espaços de negro pouco convicto e a barriga apressa-se por ganhar consistência de mini-trampolim, a maneira de ver o mundo foi completamente filtrada. É como se de um momento para o outro o olhar vítreo tipo óculos ray-ban tivesse dado lugar a vislumbre via espelho deformador da feira popular. As manhas juvenis desapareceram e a mania de invulnerabilidade foi substituída por constantes dores nos artelhos e ressacas com grau de dificuldade idêntico ao de superar o deficit, que o gin não trata com compaixão a idade. Inexplicavelmente começo a ouvir uma vozinha ecoando, tipo boca do inferno, a dizer: «quando tiveres a minha idade vais perceber...» Incrédulo tremo, que nem gelatina Alsa, ante a possibilidade de me inclinar, para o facto de achar que realmente as cousas me parecerem diferentes. Desfaleço ao pensar que mal a pequena M ganhe tremelhos no entendimento eu possa mandar-lhe, por falta de argumento convincente, de encontro à tez rosada, a história do «quando tiveres a minha idade...» Merda! Não quero compreender nada... não quero ter pretensões a perceber os pontos de vista paternos. Quero continuar a achar que nada mudou. Que os cabelos brancos até me ficam bem e que, finalmente, cheguei ao patamar apregoado pelas velhas da rua que quase me rebentaram os tímpanos a dizer: «quando for mais velho, vai lá vai...» Espero ter chegado, finalmente, ao período do «vai lá vai» e constatar que, afinal, as minhas vizinhas tinham capacidades de antevisão mais poderosas que o Gabriel Alves ou Nostredamus e que a idade ao contrário da maioria, até me fica bem.

Como destruir um apartamento utilizando só artigos de dispensa

Quarta-feira, Junho 29, 2005
Não sou apologista de um tipo determinado de criança, atrai-me o género em geral. Agrada-me, por assim dizer, a ideia de paternidade e isso basta-me. No entanto, o tipo perfeito de criança é a existente nas séries televisivas em que num episódio é embrião e está no ventre materno e no episódio seguinte já lê Kant. Todavia, inexplicavelmente, apesar do sucesso que este modelo possuiria entre todos aqueles que são ou querem ser pais isso não foi razão suficiente para levar o criador a encurtar a maternidade e a restringir o processo seguinte ao tipo descrito. O criador não quis excluir do processo de desenvolvimento humano fases como a que envolve a epopeia das excreções, na sua inevitabilidade e inoperância do sentido de oportunidade ou a de, numa etapa posterior, ser capaz de destruir um apartamento utilizando, exclusivamente, artigos da dispensa. Não só não quis isso como também não quis demitir os pais da função de activos observadores.
Em vez de saltar directamente para a acesa discussão da Crítica da razão Pura e deglutir o pensamento kantiano de uma penada, o criador preferiu gracejar-nos com mudas de fraldas e com o convívio com salutar prática do bolçar.
No respeitante à última fase acima identificada ela demonstra por A mais B que em cada fedelho reside alienisticamente um psicopata com conhecimentos suficientes para fazer explodir ou implodir qualquer edifício em que habite ou que se encontre no seu raio de acção. A situação é de tal modo calamitosa que aponta para que tais conhecimentos sejam tidos como inatos à semelhança da tendência feminina para as limpezas.
Desenganem-se aqueles que achem que as mãozinhas papudas, a escassez dentária e capilar ou a carinha bochechuda são razões por si só suficientes e fortes para inocentar todo aquele que ainda não se consiga suster de pé ou que, ainda, o faça com dificuldade. É como se vivêssemos com Charles Manson e só pelo facto de usar fraldas, gostar do Bambi e fazer gu-gu-ga-ga toda a gente o acha fofo.
Entretanto, sempre que nos convencemos que tudo não passa da nossa imaginação e baixamos a guarda, sem nos apercebermos demos o flanco e traiçoeiramente fomos cobardemente derrotados no nosso próprio terreno, vítimas inocentes de um maquiavélico estratega para quem a Arte da guerra de San Tzu é leitura de cabeceira. Foi inevitável o gato ter aparecido electrocutado, com o rabo depenado ligado a uma tomada eléctrica. Sorte semelhante conhecera o periquito que aparecera a boiar na frigideira como se tratasse de uma guerra entre famílias e aquela fosse a resposta escolhida para análogo procedimento da sua congénere. É como ter D. Corleone à mesa a delapidar-nos o lar sempre que lhe neguemos um biberão extra.

Correio dos leitores

Terça-feira, Junho 28, 2005
A pedido de alguns leitores aqui fica um esclarecimento acerca da natureza da Blitzkrieg (guerra relâmpago), da nossa como é claro.

Como sabem, o mito dos imparáveis glutões do OMO, que não davam tréguas às nódoas caiu. Finalmente foram batidos, no próprio terreno, pelo TIDE e pela NEOBLANC. As verdades inquestionáveis têm os seus dias contados. O horizonte de sentido individual é continuamente estimulado. Apesar de tudo, as nossas ideias são claras: o falsificacionismo de Popper é preferível ao depauperado verificacionismo tradicional. Face a isto, visa este comunicado dar a saber e/ou conhecer que este espaço é uma homenagem aos irmãos Castro, Badaró, Saúl («o bacalhau quer alho»), Raul-Indipwo, Félix Mendelssohn (Sinfonia n°40 em lá menor, opus 90 «Italiana»), Sabrina e Samantha Fox. Existe porque há pessoas que nos influenciam pelas mais variadas razões: a noiva de Chuky pela geral idiossincrasia, a simplicidade do trajar do juiz Rui Teixeira, a barba de Morais Sarmento, a lata de Vasco Graça Moura, o talento insofismável deTozé Brito, os erros ortográficos de José Pacheco Pereira no Abrupto, Pedro Támen por ser Pedro Támen. Não esquecendo Scarlet Johansson por ter interpretado o magnífico Lost in Translation. Existe porque um dia houve o Mr Ed, o Bonanza, os cinco da Enid Blyton (felizmente temos o bando dos quatro de João Aguiar para perpetuar o género), a Ilha da Fantasia e Sandokan - o tigre da Malásia - e isso deixa marcas para a vida. Molda-nos na nossa singularidade enquanto seres lançados no mundo (cf. conceito de Dasein em Heidegger). Existe porque nunca nos recompusemos das agruras da vida do Marco e o frio que a Heidi passava na casa do avô, que era na montanha, mesmo quando o Pedro andava a correr atrás dela para reinar, o mariola, nos tocou fundo. É o corolário do pós modernismo sueco na sua transmigração para a lusitanidade. Ao contrário dos iogurtes não tem prazo de validade e é dirigido quer a meliantes quer a indivíduos sensíveis que não se esquecem de regar as plantas e respeitam os direitos dos animais, incluindo os mais idosos. É a materialização da dialéctica hegeliana despojada de corantes e conservantes. Das estepes à Tanzânia, de Tikrit à Póvoa de Santa Iria, o caos e a contradição geram, por vezes, o improvável. Shwarzenegger é governador, Santana Lopes, mesmo que pouco tempo, foi primeiro-ministro. No entanto, é aqui que o jng e o jang, o sense e o non-sense na incomensurabilidade dos paradigmas, aperaltados por Khun se encontram. Exige-se, exclusivamente, sinapses musculadas e neurónios bem definidos, embora facilitasse, por razões que adiante se tornarão claras, o contacto com Eco e Derrida nas suas obras semiológicas. Todos são bem-vindos - niilistas, existencialistas, cultores do círculo de Viena, agnósticos, patronato e proletariado, povo e burguesia - evitem, todavia, o contacto com ideias preconceituosas e bacocas que aviltem a compreensão. Se mesmo pedindo, ainda assim, não resistirem a esses Nosferatus ideológicos sejam, igualmente, bem vindos. Porque no fim, «always look on the bright side of life»